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homenagem a Marcelo Germanos

segunda-feira, julho 14th, 2008

É, aqui nem sempre a gente fala sério, mas também nem sempre a gente brinca. Hoje, 14 de julho, está completando 1 ano que um grande parceiro se foi. Lembro-me que na noite daquele sábado fui até a casa do André, cheguei visivelmente abatido com algumas latas de cerveja que havia comprado. Cumprimentei a todos, servi uma lata pra cada um, abri a minha, levantei e disse algo do tipo ‘hoje eu perdi um amigo, este brinde é em sua homenagem pois nunca mais poderei brindar com ele’. Não queria dar tom lamurioso a estas palavras, mas é difícil recordar sem que lágrimas irrompam e sem que outras lembranças venham à tona.

Como no dia em que estivemos no cemitério de Cornélio Procópio pela ocasião do falecimento do pai de outro grande amigo, Guilherme Chueiri. Estávamos à certa distância no momento do enterro e a reedição do sentimento de perda fez inevitável o choro. O Robinho me deu um abraço e as poucas palavras que eu consegui falar foram ‘o foda é a saudade que fica’. É, e eu ainda acho isso. Não com um pesar melancólico, mas com uma certa idéia - até certo ponto egoísta - de querer curtir aquela pessoa ali ao teu lado só mais um pouquinho.

Ocorreu-me agora um texto bastante pertinente de Freud, ‘Sobre a Transitoriedade’. Ali ele cita algumas pontuações que fez após uma tarde de caminhada com um amigo poeta. Diz ele que o poeta admirava a beleza dos ‘campos sorridentes’ mas não lhe extraía alegria alguma, isso porque dentro em breve viria o inverno e aquele esplendor estaria fadado à extinção. A este incômodo do poeta Freud chamou ‘ponto de vista pessimista’ - por sua idéia de que a transitoriedade da beleza implica em perda de seu valor; e contra-argumenta que, pelo contrário, implica um aumento!

Afirma ainda que "O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição". Portanto, queridos leitores, incentivo que a postura da intensidade seja adotada, promulgada e difundida em todas as vertentes possíveis! Tenho na figura do Germanos um cara que batalhou por essa bandeira - assim como eu fiz, faço aqui e continuarei fazendo até não mais poder. Chega de ser rasoável!

Acabei me estendendo mais do que o esperado. Gostaria apenas de encerrar com o texto que fiz ano passado após a notícia ter invadido a orla marítima de minha consciência feito um tsunami - e os créditos vão pro ‘filósofo estivador’, pela inspiração.

UM POETA, UM ENSAIO, UMA PRECE

Sobre o ser inventivo de letras acompanhadas:

Derramadas pelos dedos, recortadas pelos sentimentos
Quase nunca eram leves tais porções amontoadas
Se erravam, era por pouco
Conduzidas sem acaso – ou com – atendiam ao juiz
Quem ficava e quem saía, qual aonde? essa ou não
Importava sim, e muito
Altas freqüências costurando as entrelinhas
Perninha do a, bracinho do o, pingos e pontos
Fio a fio

Sobre a hora certa de entrar em cena:

Preocupação inevitável de exatidão cáustica
O frio na espinha com o movimento das cortinas
A luz, abaixa
Chega o momento de este aprendiz entrar em cena
De nada vale agora o bloco de anotações na coxia
O clarão, nos olhos
Sem titubear a pupila se contrai e começa a brilhar
Refletindo faces de quem sabia de sua grandeza
Uma estrela

Sobre o que dizer quando tudo acaba:

Rezar? Não sei se me lembro ou se consigo
Muito do que aconteceu se faz agora presente
Vivo, em mim
Sorrisos e lágrimas remontam idéias de dias melhores
Eis minha oração, singela e sincera
E viva você!
Não se acanhe não, chegue quando quiser
Porque grande é a parte que finda, mas ainda maior
É a tua infinitude

(14/07/2007)

Forte Abraço a todos!