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angenor dos olhos tristonhos

sábado, outubro 11th, 2008

“Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve.” - Nelson Sargento

Que maneira melhor pra começar a falar desse mestre da música senão essa? Nascido no Catete, em 11 de outubro de 1908, Agenor de Oliveira ficou Angenor por conta de um erro do escrivão. Do período que morou nas Laranjeiras carregou o verde e o rosa, cores que comporiam a escola que ele ajuda a fundar tempos depois.

Chegou à Mangueira aos 11 anos de idade. Após muito tempo de ralação lavando carros e em 3 empreitadas da dupla ZiCartola em ‘restaurantes musicais’ [ela na rangaria e ele nas cordas], Cartola finalmente decola em sua carreira.

… Cartola foi convencido pelo produtores Jorge Coutinho e Leonides Bayer a fazer parte da verdadeira seleção do samba que se reuniu durante anos, todas as segundas-feiras, às 21:30 horas, no mais importante gueto de resistência e difusão do samba e formação de novas platéias e sambistas nos anos setenta: a Noitada de Samba do Teatro Opinião. Cartola era a última atração do elenco fixo da casa, encerrando a primeira fase de cada segunda-feira no momento em que chamava ao palco a atração de cada semana. De Donga a Adoniran Barbosa, de J. Piedade a Ismael Silva - todo mundo cantou lá.

Agora Cartola e Zica contavam com os bens da sociedade de consumo - televisor colorido, telefone, as paredes gastas de madeira deram lugar à concreto e laje -, mas seguiam os mesmos, portas abertas para os amigos. E justamente pela necessidade de maior tranquilidade, a decisão de deixar o morro.

… foi em Jacarepaguá que Cartola fez 70 anos. E, na verdade, não foi um aniversário. Foi um evento cultural - institucionalizado, inclusive. Às 5:30 da manhã daquele 11 de outubro, teve alvorada comandada por Lígia Santos, filha de Donga, Marília Barbosa e Arthur de Oliveira. No fim da tarde, houve grande missa na Igreja de N. S. da Glória, no Lago do Machado, com participação da soprano Maria Lúcia Godoy, do tecladista e compositor Wagner Tiso e do Coral da Universidade Gama Filho. E não ficou nisso: Sérgio Cabral proferiu conferência na Sala Funarte (Hermínio Bello de Carvalho, chefe da área musical, foi que institucionalizou a data em âmbito federal). Na quadra da Mangueira, no dia 19, participação especial da Ala dos Compositores para homenagear o mestre. 

Obviamente que a reação do figura veio à altura:

verde.que.quero.rosa“É muito bom saber que a gente não passou pela vida em branco. Prefiro as homenagens, agora, enquanto estou vivo. Que me adiantariam depois? Gosto desse tipo de reunião, como essas aqui em casa. Mas gosto também de missas, como a que foi organizada pela Funarte. E não adianta me perguntar quem vai cantar na igreja. Eu não sei de nada. Sou apenas o homenageado. Tudo o que vai acontecer, receberei com muita alegria.”

Cartola, além de um sonho, foi isso. Um grande sambista, uma perspectiva inigualável, uma melodia incomparável. As melhores declarações de amor que eu já tive o prazer de ouvir - vide ‘Nós Dois’. Um brasileiro que soube fazer do coração canção.

 

*texto de Roberto M. Moura, extraído do livro ‘O Melhor de Cartola’