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pour ma mère, para proust (ou no fundo do quintal de casa)

segunda-feira, março 30th, 2009

Chegando em casa numa segunda-feira, apressei-me em esvaziar os bolsos e despir-me de uma camiseta que inspira pouca confiança; com a breve impressão de que logo choveria e o tempo de janelas abertas seria curto. Era uma tarde quente de início de outono, quando as folhas ainda não caíram e a maioria delas ainda não está amarelada ou pendendo nos galhos como dedos de mãos exaustas, balançando suavemente às rajadas fortuitas de vento que tendem a se apressar e ganhar mais forma de acordo com o evoluir da estação; à vista, o beiral de casas e edifícios já sente o sabor umedecido de gotas que virão, como se a sede se lho apresentasse urgente tal a descomedida paixão por uma musa insistente em trajar seus curtos, sempre disposta a sorrir olhares, apontar lugares, desferir prioris, regular senão. O vaso estreito também pensa o mesmo e ao deitar do líquido antecipa o aroma, qual madeleine, faz brotar a sensação de um quintal singelo na mais tenra infância, donde o precioso tempo pôs-se ancorado na imagem de um arco-íris evidente sob o esguicho, e dentro dele; daquelas mãos que me tiraram febres e afastaram monstros a magia resplandecia a cada entardecer, despertando cores quase alucinantes nas pontas de pés de rosa, primaveras, bromélias e tantas outras que por mim se aventuraram a buscar tesouros. Daquele fundo vida se fez; a bater corações desencontrados: primos, amigos, irmã, avó, minha mãe; e atualiza-se quando recentes partem levando consigo parte de nós – não de mim, do que obtivemos – e deixam comigo seu íntimo apreço, o que jamais me escapa, e compartilho somente quando escrevo.

“Os esnobes gostam de salientar que, se Proust fosse mais bem-educado e não costumasse molhar o bolinho no chá, a literatura do mundo seria mais pobre”
- Edmund White