graveleux
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quarta-feira, março 3rd, 2010Quarta-feira, aquela coisa, quarta-feira. Pouca expectativa, metade da semana indo pro saco e outra metade ainda por ir. O ‘só por hoje’ é lenitivo na nova batalha contra o hábito de fumar – friso no hábito, pois nem só de química vive o homem! E, deve ser coisa de início de mês, aconteceu novamente. Da outra vez deve ter sido ali dia 05 passado – calculo por imaginar ser uma semana antes do carnaval e me lembrar de ser uma sexta. Mas nessa primeira foi diferente: teve grito e discussão, nem sei ao certo a causa, mas a senhora denunciava aos brados o descaso do atendimento curitibano. Mais especificamente: do atendimento em um supermercado curitibano em detrimento ao de um supermercado londrinense. Nada contra a rede, imagino, parece ter faltado o velho “encontrou tudo que desejava?”, isso que quando tem a gente se cansa e quando não tem alguém se queixa. Coisa de quem está insatisfeito e busca afeto em caixas ou empacotadores, decerto.
Hoje foi diferente. Fila de caixa rápido é encrenca, principalmente depois das 17h30, mas ainda é opção. Não quero generalizar, pois acho mesmo que não é opção pra todos. Fato é que eu estava entrando ali já no corredorzinho pros caixas, havia deixado o corredor do mercado [que, sabemos, fica povoado por conta do tamanho da linha humana], quando um estrondo me força o olhar para trás. Dizer que vi seria mentira, só o vulto sumindo entre a fileira de pessoas e a prateleira. Todos olhando, os mais próximos assustados. A cestinha tombada ao chão, produtos espalhados – alguns caídos da estante e outros, escolhidos a gosto, agora abandonados à sorte de um senhor que depois se candidataria a recolhê-los – sem reivindicação aparente [ou não].
Pra mim o que se evidencia, de maneira cada vez mais gritante, no trabalho e no dia a dia, é uma intolerância à frustração. É proibido proibir! Você pode – e deve! – tudo! Esse neoliberalismo, confesso, me deixa extremamente intrigado no que diz respeito ao caminho que a condução pode ganhar. Soa como uma subversão de ordem particular em âmbito social: todos e cada um sendo o Juggernaut encarnado em Coelho Branco, tendo como a própria consciência a Rainha de Copas. Tá, vocês sabem, eu sempre exagero um pouco; mas o “agora ou já” traz consigo esse potencial destrutivo, no qual a satisfação não tem o direito de vacilar. Enquanto isso Julia espera.
o retorno
quinta-feira, setembro 17th, 2009Tem aquela hora que a gente acorda e pensa ‘pootz, será que eu dormi mesmo ou foi só um sonho?’, e quase nada mais importa além da sensação de que algo foi perdido. Sim, perdido, pois se estava dormindo não viu passar e se estava sonhando deixou escapar. Resta uma nostalgia do nunca antes possuído. Aquela vontade de voltar
e agarrar cada milímetro que o ponteiro menor já rodou.
“- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo!”
Não que seja de acanhar, mas não é fácil que se torne uma constante. Não, não, permanente já é demais!
E por vezes prende mesmo!
Quero voltar!
delatando el deleterio del anturio
domingo, julho 12th, 2009“¿Que le pasa a este niño?” – bradava a inconformada Consuelo de debaixo da mesa – “yo no creo!” – fazia questão de acentuar a não crença [e sabe-se que justamente por lhe fazer questão é que se entoa visceralmente]. Deixava a sala e, em seguida, a copa para passar a cozinha e alcançar, nos fundos, um quartinho ao qual destinava seus pertences. Logo foi pegando tudo com gestos bruscos e jogando o que não era seu por direito ao chão. Sapateava nos aventais e na pobre tiarinha ali à mingua. Santo algum a faria novamente aguentar as práticas características do intolerantismo, preconcebidas e executadas por criatura de pouca idade. Dona Charlene mais exprimia seu triste pesar do que a persuadia a desistir quando adentrava o quarto. “Sinto muito” – disse cabisbaixa sentando-se na pequena cama – “este guri é mesmo resistente às nossas tentativas”. A luz baixa que atravessava as persianas fechadas dava um tom melancólico às suas palavras. “É justo que nos deixe, porém, antes de partir, e como você nos abriu os olhos para o ocorrido com o vaso, peço como último favor que livre nossa pobre planta de novos episódios como este.”
E foi assim que Consuelo abandonou sua vida de diarista e deu início a outro projeto, o de jardineira.
e a pergunta da semana é:
terça-feira, junho 9th, 2009Quanto vale tudo que você acredita?
ge
terça-feira, maio 26th, 2009porque cada vez que te olho
tenho que ficar na ponta dos pés
pra tentar alcançar o chão
parece simples, mas a gente sobe
feito balão de parque
e tem que se agarrar
em alguma árvore, fio ou prédio
e fechar o olho é pior, vem
aquele gelo na barriga
como quando se sonha que cai
bem rápido, mas é subida
é que eu nunca costumei te olhar
nem ao lado de teu namorado,
ou equilibrando chapéu e óculos
quem sabe aqui ou Machu Picchu
porque cada vez que te olho
é a primeira vez que te vejo
e não dá pra não ser
pour ma mère, para proust (ou no fundo do quintal de casa)
segunda-feira, março 30th, 2009Chegando em casa numa segunda-feira, apressei-me em esvaziar os bolsos e despir-me de uma camiseta que inspira pouca confiança; com a breve impressão de que logo choveria e o tempo de janelas abertas seria curto. Era uma tarde quente de início de outono, quando as folhas ainda não caíram e a maioria delas ainda não está amarelada ou pendendo nos galhos como dedos de mãos exaustas, balançando suavemente às rajadas fortuitas de vento que tendem a se apressar e ganhar mais forma de acordo com o evoluir da estação; à vista, o beiral de casas e edifícios já sente o sabor umedecido de gotas que virão, como se a sede se lho apresentasse urgente tal a descomedida paixão por uma musa insistente em trajar seus curtos, sempre disposta a sorrir olhares, apontar lugares, desferir prioris, regular senão. O vaso estreito também pensa o mesmo e ao deitar do líquido antecipa o aroma, qual madeleine, faz brotar a sensação de um quintal singelo na mais tenra infância, donde o precioso tempo pôs-se ancorado na imagem de um arco-íris evidente sob o esguicho, e dentro dele; daquelas mãos que me tiraram febres e afastaram monstros a magia resplandecia a cada entardecer, despertando cores quase alucinantes nas pontas de pés de rosa, primaveras, bromélias e tantas outras que por mim se aventuraram a buscar tesouros. Daquele fundo vida se fez; a bater corações desencontrados: primos, amigos, irmã, avó, minha mãe; e atualiza-se quando recentes partem levando consigo parte de nós – não de mim, do que obtivemos – e deixam comigo seu íntimo apreço, o que jamais me escapa, e compartilho somente quando escrevo.
“Os esnobes gostam de salientar que, se Proust fosse mais bem-educado e não costumasse molhar o bolinho no chá, a literatura do mundo seria mais pobre”
- Edmund White
nas facetas da desilusão II
segunda-feira, março 23rd, 2009e tinha também aquele um que queria ser um homem-bala. Com hífen, mas não daquele que entra em um canhão e é lançado pra uma rede; muito menos toffe. Quem sabe, mirando bem, conseguiria então penetrar um coração.
*imagem extraída de http://www.overmundo.com.br/.
nas facetas da desilusão
quinta-feira, janeiro 22nd, 2009e foi só quando ganhei meu par de asas que percebi que em tudo que se ganha também se perde algo, agora só durmo de bruços.
zapping, tips and personality
segunda-feira, janeiro 12th, 2009da exegese à exigência
quinta-feira, janeiro 8th, 2009
e tinha também aquela mania dicaz de ficar na ponta dos pés e olhar de cima pra baixo, como se lhe fosse indiferente o obstáculo.
não se deixa abater pelas circunstâncias, o longo caminho por vir solicita urgência na capacidade de discernimento.
“Bem-aventurado é o homem que – em detrimento dos padrões ou condições físicas e intelectuais penosas – ao cair já tem seus pensamentos voltados para o momento em que estará pé, tal qual ardiloso funâmbulo, cujos olhos apontam o futuro do arame.”














