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arzinho superior enquanto mecanismo de picaretagem

domingo, novembro 30th, 2008
Se existe algo que me enoja um pouco é a necessidade que algumas pessoas sentem de parecerem descolados. Qualquer evento de sucesso só poderá ser considerado como tal se tiver a presença infame de meninos e meninas com carinha blasé, supervalorizando o tosco e remexendo cabelinhos ensebados. O que me incomoda, na verdade, é o comportamento de afirmar a própria identidade no pertencimento a um grupo e se considerar alguém de atitude e personalidade por isso. Não que eu, ou qualquer outra pessoa, não construa mos nossa identidade e padrões de comportamento no relacionamento com grupos de afinidade. A questão é tomar tais padrões como superiores aos demais, simplesmente porque tenho um grupo para me reafirmar.
No fim das contas, o problema mesmo é ser filho da puta. E filho da puta tem em qualquer lugar. Não sei o que é pior: se caras que só sabem falar de quantos quilometros fazem com um litro de gasolina ou sujeitos que se ouriçam todo ao discorrer sobre seu mega conhecimento musical de bandas alternativas inglesas. Repare: discorrer sobre seu conhecimento, não sobre as bandas. Realmente uma bosta.
Não gosto de pessoas que o tempo todo estão mostrando que devemos gostar delas. Não suporto a subversão de boutique, o lesbianismo descolê, os valores rasos vendidos como a última grande descoberta da humanidade. Acima de tudo, não gosto do aparecismo. Se você é um figura boa praça, com boas idéias e um caráter razoável, não demora muito para as pessoas a sua volta perceberem. Você terá amigos e, quem sabe, até uma garota. Mas, é claro, se você não tem merda nenhuma na cabeça, se teu senso crítico é tão rígido quanto o gel que passas no cabelo, compense isso com meia dúzia de idéias polêmicas emprestadas, subversão rasa e ideologias de boteco. Quando questionado sobre tudo isso, arrepie os cabelos e considere teu interlocutor careta e sem graça. Você é o descolado, afinal.

Deus está vindo, pareça ocupado

segunda-feira, novembro 3rd, 2008

1 - Ande realmente rápido quando estiver indo para qualquer lugar, para parecer que algo muito importante está prestes a acontecer.

2 - Carregue papéis ou um notebook o tempo todo. Pareça que está indo em algum lugar tomar notas de alguma coisa. Se estiver em sua mesa, deixe papeis com canetas sobre ela.

3 - Papéis bagunçados

4 - Pareça com vontade de ir ao banheiro.

5 - Abra o Microsoft Word e escreva e-mail ou posts para seu blog.

6 - Encha seu local de trabalho com papeizinhos de blocos post-it com anotações importantes e números que você deve ligar.

7 - Faça um Screenshot de sua tela com diversos programas relacionados ao seu trabalho. Tire todos os ícones da área de trabalho e faça a barra do menu iniciar auto-desaparecer. Coloque o ScreenShot como papel de parede. Agora sempre que você minimizar o programa que está usando, vai parecer que está trabalhando.

Quase todas as dicas foram selecionadas e traduzidas daqui, não sendo de minha autoria nem de meu uso diário. Têm apenas fins educativos.

principado das ilusões

quinta-feira, outubro 30th, 2008

Nunca gostei da porra daquela raposa do Exupery e sua conversa mole sobre responsabilidades para com o cativo. Coisa de miss. Cativa-se aquele que quer, e deve saber onde enfia o pé aquele que na cara não quer levar um chute. A criança, ao colocar o gato no microondas, tem direito de dizer que não sabia. Só não pode pedir para o gato voltar. Quando se é, em natureza, mole, nada resta além de pingar. Em pingos descobrir os medos que teimas em velar. Ou as palavras que desvelam meus medos. Pouco importa.

homenagem a Marcelo Germanos

segunda-feira, julho 14th, 2008

É, aqui nem sempre a gente fala sério, mas também nem sempre a gente brinca. Hoje, 14 de julho, está completando 1 ano que um grande parceiro se foi. Lembro-me que na noite daquele sábado fui até a casa do André, cheguei visivelmente abatido com algumas latas de cerveja que havia comprado. Cumprimentei a todos, servi uma lata pra cada um, abri a minha, levantei e disse algo do tipo ‘hoje eu perdi um amigo, este brinde é em sua homenagem pois nunca mais poderei brindar com ele’. Não queria dar tom lamurioso a estas palavras, mas é difícil recordar sem que lágrimas irrompam e sem que outras lembranças venham à tona.

Como no dia em que estivemos no cemitério de Cornélio Procópio pela ocasião do falecimento do pai de outro grande amigo, Guilherme Chueiri. Estávamos à certa distância no momento do enterro e a reedição do sentimento de perda fez inevitável o choro. O Robinho me deu um abraço e as poucas palavras que eu consegui falar foram ‘o foda é a saudade que fica’. É, e eu ainda acho isso. Não com um pesar melancólico, mas com uma certa idéia - até certo ponto egoísta - de querer curtir aquela pessoa ali ao teu lado só mais um pouquinho.

Ocorreu-me agora um texto bastante pertinente de Freud, ‘Sobre a Transitoriedade’. Ali ele cita algumas pontuações que fez após uma tarde de caminhada com um amigo poeta. Diz ele que o poeta admirava a beleza dos ‘campos sorridentes’ mas não lhe extraía alegria alguma, isso porque dentro em breve viria o inverno e aquele esplendor estaria fadado à extinção. A este incômodo do poeta Freud chamou ‘ponto de vista pessimista’ - por sua idéia de que a transitoriedade da beleza implica em perda de seu valor; e contra-argumenta que, pelo contrário, implica um aumento!

Afirma ainda que "O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição". Portanto, queridos leitores, incentivo que a postura da intensidade seja adotada, promulgada e difundida em todas as vertentes possíveis! Tenho na figura do Germanos um cara que batalhou por essa bandeira - assim como eu fiz, faço aqui e continuarei fazendo até não mais poder. Chega de ser rasoável!

Acabei me estendendo mais do que o esperado. Gostaria apenas de encerrar com o texto que fiz ano passado após a notícia ter invadido a orla marítima de minha consciência feito um tsunami - e os créditos vão pro ‘filósofo estivador’, pela inspiração.

UM POETA, UM ENSAIO, UMA PRECE

Sobre o ser inventivo de letras acompanhadas:

Derramadas pelos dedos, recortadas pelos sentimentos
Quase nunca eram leves tais porções amontoadas
Se erravam, era por pouco
Conduzidas sem acaso – ou com – atendiam ao juiz
Quem ficava e quem saía, qual aonde? essa ou não
Importava sim, e muito
Altas freqüências costurando as entrelinhas
Perninha do a, bracinho do o, pingos e pontos
Fio a fio

Sobre a hora certa de entrar em cena:

Preocupação inevitável de exatidão cáustica
O frio na espinha com o movimento das cortinas
A luz, abaixa
Chega o momento de este aprendiz entrar em cena
De nada vale agora o bloco de anotações na coxia
O clarão, nos olhos
Sem titubear a pupila se contrai e começa a brilhar
Refletindo faces de quem sabia de sua grandeza
Uma estrela

Sobre o que dizer quando tudo acaba:

Rezar? Não sei se me lembro ou se consigo
Muito do que aconteceu se faz agora presente
Vivo, em mim
Sorrisos e lágrimas remontam idéias de dias melhores
Eis minha oração, singela e sincera
E viva você!
Não se acanhe não, chegue quando quiser
Porque grande é a parte que finda, mas ainda maior
É a tua infinitude

(14/07/2007)

Forte Abraço a todos!